domingo, 27 de junho de 2010

Meu Amigo Melão

Em minha terra natal onde dei meus primeiros passos, subindo a rua de minha casa, indo ao Colégio Augusta Maciel Vidigal, à Matriz no alto da Cidade Velha, acompanhando os sepultamentos, as festas, o carnaval – no cento da cidade – em suas ruas de pé de moleque, assistindo aos jogos no Comercial Futebol Clube, brincando no bambuzal no fundo de casa, realizando corridas de carrinho de rolimã no Morro do Padre, andando de bicicleta pelas ruas, indo até a Fazenda da Vargem contar assombrações enfim, em todos esses momentos, tinha a presença de um grande amigo.
Melão era como se eu fosse um louco Don Quixote e ele o modesto e ajuizado Sancho Pança. Com seu rosto repleto de pintinhas era um companheiro para os momentos aventureiros que os meninos inventam. Gostávamos muito de sair pelas ruas de pé de moleque com nossas selvagens bicicletas. Numa dessas, lembro-me que tomei um tombo terrível que me causou um belo galo na cabeça. Melão nunca foi de galo, ele, estranhamente, recebera uma herança de ser flamenguista. Algo muito estranho que seu pai lhe deixou de presente. Nós nunca compreendemos essa anomalia em terras mineiras mas, gostávamos tanto daquele menino que mesmo assim, aceitávamos sua presença.
Melão morava numa casa enorme e cheia de parentes. Em frente havia um jardim cheio de rosas e outras plantas, esse jardim serpenteava por todos os lugares até deixar a porta da casa aos nossos olhos. Entrar nessa casa, era como fazer uma viagem, mas, lá dentro as tias de melão nos serviam inúmeras quitandas, uma mais saborosa que a outra. Eu não saberia dizer o que era mais gostoso: goiabada, queixo, café, biscoito de polvilho, pão caseiro etc. e tal. Era uma festa.
Na escola éramos muito chegados principalmente, no jardim de nossa infância com tia Sonia e Tia Dulce. Lembro-me daqueles dias, reminiscências apagadas e distantes, mas, trago em minha cabeça uma perene compreensão de que fomos muito felizes e bem cuidados. Foi no Jardim de Infância que aprendemos os mistérios das letras e os enigmas das palavras. Até hoje, trago em mim as inscrições desses dias iluminados e a saudade de meus pequenos amigos e da grandiosa presença dessas professoras.
Mais tarde, Melão que era pequeno e pintatinho, cresceu e nossa cidade ficou pequena para ele. Na verdade, ele sempre foi assim, de natureza exuberante. Habilidoso, foi logo aprendendo oficio de operário e nos deixou. Foi morar em Itabira, explorando as Minas de Minério de Cauê e de Conceição. Drumonnd não aprovava essa exploração, tinha saudade demais de seu tempo de menino e do Pico do Cauê que veio ao chão para ajudar a somar riquezas para o país. Melão que me perdoe Drumonnd é inocente, oficio de operário impõem imposições e todo mundo tem fome de pão.
Encontrei-me nesse tempo de adolescente como meu fiel amigo. Ele já não vivia naquela casa exuberante de Nova Era. Sua casa era rústica como as minas e ele trazia consigo os encantos da antiga morada e a coragem de fazer a vida em meio a tantas exigências. Melão já era um homem e eu, protegido pelas muralhas de minha casa e de meus pais, tinha a compreensão de que ele estava mais velho. Admirava sua maturidade e lastimava meus inúmeros conflitos. Meu amigo, tornou-se meu irmão. Ele escutava minhas questões compartilhando seus entendimentos. Após essas conversas saia de sua morada mais capaz de viver nas muralhas que me prendiam.
Melão era mais livre, talvez pelo fato de ser mais independente. Ele deve que viver assim, entre o mundo e a casa das tias, fora da casa do pai e longe da presença materna. Tenho por esse amigo um profundo respeito. Quando crescer gostaria de ser parecido com ele. Melão sabe conciliar, falar a boa nova, ouvir as lastimas para no fim ser feliz e amigo de todos. Como diria meu amigo Zé Leão ele é boa praça. Qualidade de poucos e virtude para quem pode. Não sei como ter tal graça.
Melão resolveu se casar, com uma moça admirável. Por minha vez, estive nesse dia. Ambos morávamos no Espírito Santo e eu e minha dona estivemos nesse evento. Alias, fui seu padrinho de casamento, algo que me deixou muito contente. Gosto muito desses eventos ritualísticos e para o resto da vida. Acho isso importante já que a vida não nos permite saber o futuro ainda assim, pactuamos o amanha em meio a tantos infortúnios e incertezas. 

2 comentários:

  1. Já ouvi muito falar desse Melão...
    Belíssima história, mais ainda, por ser real.

    ResponderExcluir
  2. Amizade pra enfrentar infortúnios da vida!
    Isso é tão singelo que reluz mais que ouro ou diamante... isso é felicidade....

    bj

    ResponderExcluir